sábado, 10 de outubro de 2026

O desvelamento da hipocrisia



Em Bons tempos, Caro Claire Burke mergulha na mente de uma tradwife para expor toda a hipocrisia desse tipo de influenciadora, que se torna cada vez mais comum fora da ficção, nos EUA e também no Brasil.

Se, no meu caso pessoal, me armaram uma emboscada com o objetivo de denunciar meu estilo de vida, a ideologia das tradwives também é um projeto falido. Se não o é, atende exclusivamente aos interesses do patriarcado. Então o halo de perfeição que a esposa supostamente virtuosa julga emanar, é só fachada. Uma fachada frágil que nem casquinha de ovo.

Quando o romance se inicia, a protagonista Natalie Heller Mills tem cinco filhos e está grávida novamente, e age como se tivesse uma vida perfeita... mas é tudo performance das brabas! Então a ficção de Burke ilustra bem que ser uma parideira e se entupir de cosméticos para disfarçar o cansaço não é uma opção muito melhor que ter uma vida livre e ser punida pela sociedade com sua intimidade vazada...

Natalie não gosta de ser mãe e usa os filhos como negócio, pois eles contribuem para compor a vitrine de família impecável. A influenciadora também dá a entender a seus seguidores que ela e o marido cuidam da fazenda sozinhos, sem nenhum auxílio, o que não é verdade. Contam com a ajuda de diversos funcionários.

Ajudada pelo sogro, um político conservador que afirma que os estadunidenses têm um "problema com a fronteira", a protagonista compra uma fazenda que será o palco de seu business e a fachada perfeita para impulsionar a campanha dele próprio, Doug. Uma nora com uma prole numerosa e que finge fazer seu pão "do zero" é por si só um marketing muito efetivo para um político como Doug, que acumula em seu pacote tradicionalista a mencionada visão acerca dos imigrantes.

Além disso, é de pasmar que o apresentador que ajuda a alavancar a carreira de influencer de Natalie a identifique como Ariana, mostrando que Burke captou bem a ideologia à qual as tradwives estão atreladas.

Não vou me estender muito mais pois esse é um tipo de livro cuja leitura sobreviveria muito mal a spoilers, mas Bons tempos cumpre sua função de denunciar a inconsistência do discurso das tradwives.

Enfim, Caro Claire Burke não é uma Paulliny Tort, brasileira que esbanja literariedade. Mas o romance de Burke nos faz refletir acerca de questões prementes da atualidade. E, se está previsto que Bons tempos seja adaptado para o cinema, com atuação de Anne Hathaway, é bom que a crítica ao sistema venha de dentro do próprio mainstream, à maneira de um cavalo de Troia.

 

domingo, 31 de maio de 2026

Machismo numa plataforma de petróleo


 A história de Boletim de bordo se passa numa plataforma de petróleo, onde a protagonista Dora atua como fiscal, ou seja, está hierarquicamente bem posicionada, o que não impede que ela sofra o infelizmente inevitável machismo.

Conduzindo uma investigação acerca de um acidente fatal, a fiscal constantemente se compara a um golfinho que ficou encurralado no "moon pool", uma abertura no casco localizada no centro do navio.

A situação vai ficando cada vez mais espinhosa e, para agravar o contexto, a narrativa acontece em plena pandemia do coronavírus.

Mas, em meio a esse thriller, há outra personagem, Janaína, que evidencia que uma simples puta pode ter mais dignidade que muito macho que se vende como respeitável.

Guida Carvalho nos lembra que, fiscal ou puta, ser mulher neste mundo (seja em mar, seja em terra) não é para principiantes.

Alteridade-mor

Até o funcionário da secretaria lendo o meu nome errado - tudo foi pura encenação. Lógico que ele sabia quem eu era.

Foi quando o Professor Coordenador de Área fazia um tour pela escola comigo.

O disse-me-disse certamente chegou à diretora, que não validou o meu contrato de D. T. "Aquela sirigaita!", imagino-a falando.

E é assim que me tornei a alteridade-mor em Esparramávea. Graças ao trabalho incessante de uma certa burguesa, trabalho que ela faz com afinco, literalmente dia e noite, com o objetivo de me destruir.

Tornei-me tal como a protagonista do romance de Darrieussecq: rejeitada por todos, evitada por todos.

Mas há uma trilha a ser percorrida nessa linha de fuga. Ainda que uma trilha em meio aos escombros.

Há de haver uma saída. Um túnel cavado em meio às letras.

Há de haver uma viela, ainda que suja, ainda que escorregadia feito um macarrão derretido.

Escola por escola, a diretora do Manuel Ortez, muito mais poderosa, sustentou o meu posicionamento dentre o corpo docente.

sábado, 30 de maio de 2026

Luta de classes


Eu apaguei a postagem anterior, mas a luta de classes continua. A história de uma burguesona querendo humilhar uma escritora perante um país inteiro. Porque a burguesona em questão não tem nenhum talento, nenhuma habilidade. Então inveja quem os tem e se tornou uma sombra de Helena Cirelli. Não tem vida própria, não faz outra coisa na vida a não ser me stalkear 24h por dia. E o BRASIL INTEIRO sabe que essa burguesona é filha do dono de uma marmoraria, ou seja, uma família de parasitas sanguessugando o dinheiro dos trabalhadores através da mais-valia.

Continuo ressaltando que A VERGONHA DEVE MUDAR DE LADO.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Percursos migratórios e seus desdobramentos

 

Assim como os latino-americanos, os nigerianos que migram para os Estados Unidos assumem muitas vezes uma condição inferior a que teriam em seu país de origem, tornando-se subservientes, como é ilustrado pela personagem tia Uju, no romance Americanah, de autoria de Chimamanda Ngozi Adichie. Já Ginika, com a flexibilidade proporcionada pela juventude, teve outra sorte. A protagonista é Ifemelu, mas tia Uju tem um papel importante no romance. E esse é um caso em que a confusão feita com o gênero narrativo mencionado se justifica, pois realmente se trata de uma história de amor. Mas o livro não se resume a isso. Detém-se muito nos percalços vivenciados pelos imigrantes no país que parece atraí-los como um ímã, por ser considerado "terra de oportunidades".

Chimamanda também desenvolve os choques culturais oriundos desses deslocamentos. Por exemplo, Ifemelu estranha os costumes dos Estados Unidos ao chegar lá, como quando vai a uma festa e as pessoas ficam só paradas bebendo, ao invés de dançar.

Há em Americanah certa marcação temporal em torno das estações: quando ela chega, um verão escaldante no Brooklyn, depois o outono das incertezas, já na Filadélfia: "[...] teve uma súbita sensação de névoa, de uma teia leitosa que teria de rasgar com as mãos. Seu outono da semicegueira tinha começado, o outono das perplexidades, das experiências que teve sabendo que havia camadas escorregadias de significado que lhe escapavam."

Passagem que revela Ifemelu tateando no escuro, descobrindo um novo mundo que a torna hesitante e insegura. Mesmo seu inglês, que ela já dominava desde a Nigéria, é motivo para ela buscar se reposicionar, tentando imitar o sotaque estadunidense, após ser confrontada por uma nativa que questiona seu conhecimento acerca da língua.

No livro de Chimamanda também se vê a crítica ao costume imperialista de, mesmo quando aparentemente se está fazendo um elogio, por trás deixa entrever um caráter de superioridade. No exemplo mencionado a seguir, o suposto elogio se destina ao exotismo que a personagem enxerga na cultura de Ifemelu: "'Que nome lindo', disse Kimberly. 'Significa alguma coisa? Amo nomes multiculturais porque eles têm significados maravilhosos, de culturas maravilhosas e ricas.' Kimberly estava dando o sorriso benevolente das pessoas que pensam que 'cultura' é uma propriedade estranha e pitoresca de pessoas pitorescas, uma palavra que sempre tinha de ser acompanhada do adjetivo 'rica'. Ela jamais acharia que a Noruega tinha uma 'cultura rica'."

Ifemelu, depois de vivenciar diversas experiências nos Estados Unidos, inclusive criando um blog que alcança certa relevância por abordar questões raciais, acaba voltando para a Nigéria - e isso não é um spoiler: nas primeiras páginas do livro já ficamos sabendo que ela vai voltar (o que também já está evidenciado desde o título do romance) - e se ressente por não ser mais tão nigeriana assim: foi definitivamente contaminada pela "América".

Na parte do romance que se passa na Nigéria, personagem que me causou forte impressão foi Kosi, com seu pragmatismo calculista com relação ao casamento: não importa que o marido tenha uma amante, o que vale é manter a fachada de casamento perfeito e a fonte de renda proporcionada pelo matrimônio.

O romance de Chimamanda nos revela que na Nigéria um homem deixar um casamento de fachada para ficar com seu verdadeiro amor é considerado "coisa de branco". Talvez por ser um país onde todo mundo tem a mentalidade de escassez (como observa a personagem Obinze), o amor romântico fica em segundo plano, e as relações realmente são guiadas por um pragmatismo.

Outra observação digna de nota presente nesta ficção nigeriana é a de que o cabelo é "a metáfora perfeita para a raça nos Estados Unidos". E a discussão continua super atual: recentemente a tenista Coco Gauff foi hostilizada em massa por posar para uma campanha de grife com seu cabelo natural. Gauff se posicionou assim: "não vou me desculpar pela aparência do meu cabelo".

Ifemelu argumenta em seu blog: "Já viu como, nesses programas de televisão que transformam a aparência da pessoa, as mulheres negras sempre têm o cabelo natural (crespo, enrolado, pixaim) na foto feia do 'antes' e como, na foto bonita do 'depois', alguém pegou um pedaço de metal quente e queimou o cabelo delas para ficar liso? Algumas mulheres negras, tanto americanas quanto não americanas, preferem sair peladas na rua a aparecer em público com seu cabelo natural. Porque, veja bem, não é profissional, sofisticado, sei lá, simplesmente não é normal."

E, se o cabelo está tão intrinsecamente associado à identidade negra, é uma violência a mulher ser coagida a alisá-lo para conseguir uma vaga de emprego, da forma que acontece com a própria Ifemelu e também é muito recorrente fora da ficção.

Como se vê, Americanah propicia o desenvolvimento de diversas reflexões, bastante atuais.