Chimamanda também desenvolve os choques culturais oriundos desses deslocamentos. Por exemplo, Ifemelu estranha os costumes dos Estados Unidos ao chegar lá, como quando vai a uma festa e as pessoas ficam só paradas bebendo, ao invés de dançar.
Há em Americanah certa marcação temporal em torno das estações: quando ela chega, um verão escaldante no Brooklyn, depois o outono das incertezas, já na Filadélfia: "[...] teve uma súbita sensação de névoa, de uma teia leitosa que teria de rasgar com as mãos. Seu outono da semicegueira tinha começado, o outono das perplexidades, das experiências que teve sabendo que havia camadas escorregadias de significado que lhe escapavam."
Passagem que revela Ifemelu tateando no escuro, descobrindo um novo mundo que a torna hesitante e insegura. Mesmo seu inglês, que ela já dominava desde a Nigéria, é motivo para ela buscar se reposicionar, tentando imitar o sotaque estadunidense, após ser confrontada por uma nativa que questiona seu conhecimento acerca da língua.
No livro de Chimamanda também se vê a crítica ao costume imperialista de, mesmo quando aparentemente se está fazendo um elogio, por trás deixa entrever um caráter de superioridade. No exemplo mencionado a seguir, o suposto elogio se destina ao exotismo que a personagem enxerga na cultura de Ifemelu: "'Que nome lindo', disse Kimberly. 'Significa alguma coisa? Amo nomes multiculturais porque eles têm significados maravilhosos, de culturas maravilhosas e ricas.' Kimberly estava dando o sorriso benevolente das pessoas que pensam que 'cultura' é uma propriedade estranha e pitoresca de pessoas pitorescas, uma palavra que sempre tinha de ser acompanhada do adjetivo 'rica'. Ela jamais acharia que a Noruega tinha uma 'cultura rica'."
Ifemelu, depois de vivenciar diversas experiências nos Estados Unidos, inclusive criando um blog que alcança certa relevância por abordar questões raciais, acaba voltando para a Nigéria - e isso não é um spoiler: nas primeiras páginas do livro já ficamos sabendo que ela vai voltar (o que também já está evidenciado desde o título do romance) - e se ressente por não ser mais tão nigeriana assim: foi definitivamente contaminada pela "América".
Na parte do romance que se passa na Nigéria, personagem que me causou forte impressão foi Kosi, com seu pragmatismo calculista com relação ao casamento: não importa que o marido tenha uma amante, o que vale é manter a fachada de casamento perfeito e a fonte de renda proporcionada pelo matrimônio.
O romance de Chimamanda nos revela que na Nigéria um homem deixar um casamento de fachada para ficar com seu verdadeiro amor é considerado "coisa de branco". Talvez por ser um país onde todo mundo tem a mentalidade de escassez (como observa a personagem Obinze), o amor romântico fica em segundo plano, e as relações realmente são guiadas por um pragmatismo.
Outra observação digna de nota presente nesta ficção nigeriana é a de que o cabelo é "a metáfora perfeita para a raça nos Estados Unidos". E a discussão continua super atual: recentemente a tenista Coco Gauff foi hostilizada em massa por posar para uma campanha de grife com seu cabelo natural. Gauff se posicionou assim: "não vou me desculpar pela aparência do meu cabelo".
Ifemelu argumenta em seu blog: "Já viu como, nesses programas de televisão que transformam a aparência da pessoa, as mulheres negras sempre têm o cabelo natural (crespo, enrolado, pixaim) na foto feia do 'antes' e como, na foto bonita do 'depois', alguém pegou um pedaço de metal quente e queimou o cabelo delas para ficar liso? Algumas mulheres negras, tanto americanas quanto não americanas, preferem sair peladas na rua a aparecer em público com seu cabelo natural. Porque, veja bem, não é profissional, sofisticado, sei lá, simplesmente não é normal."
E, se o cabelo está tão intrinsecamente associado à identidade negra, é uma violência a mulher ser coagida a alisá-lo para conseguir uma vaga de emprego, da forma que acontece com a própria Ifemelu e também é muito recorrente fora da ficção.
Como se vê, Americanah propicia o desenvolvimento de diversas reflexões, bastante atuais.
