minhapequenacatarseparticular
domingo, 31 de maio de 2026
Machismo numa plataforma de petróleo
Alteridade-mor
Até o funcionário da secretaria lendo o meu nome errado - tudo foi pura encenação. Lógico que ele sabia quem eu era.
Foi quando o Professor Coordenador de Área fazia um tour pela escola comigo.
O disse-me-disse certamente chegou à diretora, que não validou o meu contrato de D. T. "Aquela sirigaita!", imagino-a falando.
E é assim que me tornei a alteridade-mor em Esparramávea. Graças ao trabalho incessante de uma certa burguesa, trabalho que ela faz com afinco, literalmente dia e noite, com o objetivo de me destruir.
Tornei-me tal como a protagonista do romance de Darrieussecq: rejeitada por todos, evitada por todos.
Mas há uma trilha a ser percorrida nessa linha de fuga. Ainda que uma trilha em meio aos escombros.
Há de haver uma saída. Um túnel cavado em meio às letras.
Há de haver uma viela, ainda que suja, ainda que escorregadia feito um macarrão derretido.
Escola por escola, a diretora do Manuel Ortez, muito mais poderosa, sustentou o meu posicionamento dentre o corpo docente.
sábado, 30 de maio de 2026
Luta de classes
Eu apaguei a postagem anterior, mas a luta de classes continua. A história de uma burguesona querendo humilhar uma escritora perante um país inteiro. Porque a burguesona em questão não tem nenhum talento, nenhuma habilidade. Então inveja quem o tem e se tornou uma sombra de Helena Cirelli. Não tem vida própria, não faz outra coisa na vida a não ser me stalkear 24h por dia. E o BRASIL INTEIRO sabe que essa burguesona é filha do dono de uma marmoraria, ou seja, uma família de parasitas sanguessugando o dinheiro dos trabalhadores através da mais-valia.
Continuo ressaltando que A VERGONHA DEVE MUDAR DE LADO.
segunda-feira, 13 de abril de 2026
Percursos migratórios e seus desdobramentos
Chimamanda também desenvolve os choques culturais oriundos desses deslocamentos. Por exemplo, Ifemelu estranha os costumes dos Estados Unidos ao chegar lá, como quando vai a uma festa e as pessoas ficam só paradas bebendo, ao invés de dançar.
Há em Americanah certa marcação temporal em torno das estações: quando ela chega, um verão escaldante no Brooklyn, depois o outono das incertezas, já na Filadélfia: "[...] teve uma súbita sensação de névoa, de uma teia leitosa que teria de rasgar com as mãos. Seu outono da semicegueira tinha começado, o outono das perplexidades, das experiências que teve sabendo que havia camadas escorregadias de significado que lhe escapavam."
Passagem que revela Ifemelu tateando no escuro, descobrindo um novo mundo que a torna hesitante e insegura. Mesmo seu inglês, que ela já dominava desde a Nigéria, é motivo para ela buscar se reposicionar, tentando imitar o sotaque estadunidense, após ser confrontada por uma nativa que questiona seu conhecimento acerca da língua.
No livro de Chimamanda também se vê a crítica ao costume imperialista de, mesmo quando aparentemente se está fazendo um elogio, por trás deixa entrever um caráter de superioridade. No exemplo mencionado a seguir, o suposto elogio se destina ao exotismo que a personagem enxerga na cultura de Ifemelu: "'Que nome lindo', disse Kimberly. 'Significa alguma coisa? Amo nomes multiculturais porque eles têm significados maravilhosos, de culturas maravilhosas e ricas.' Kimberly estava dando o sorriso benevolente das pessoas que pensam que 'cultura' é uma propriedade estranha e pitoresca de pessoas pitorescas, uma palavra que sempre tinha de ser acompanhada do adjetivo 'rica'. Ela jamais acharia que a Noruega tinha uma 'cultura rica'."
Ifemelu, depois de vivenciar diversas experiências nos Estados Unidos, inclusive criando um blog que alcança certa relevância por abordar questões raciais, acaba voltando para a Nigéria - e isso não é um spoiler: nas primeiras páginas do livro já ficamos sabendo que ela vai voltar (o que também já está evidenciado desde o título do romance) - e se ressente por não ser mais tão nigeriana assim: foi definitivamente contaminada pela "América".
Na parte do romance que se passa na Nigéria, personagem que me causou forte impressão foi Kosi, com seu pragmatismo calculista com relação ao casamento: não importa que o marido tenha uma amante, o que vale é manter a fachada de casamento perfeito e a fonte de renda proporcionada pelo matrimônio.
O romance de Chimamanda nos revela que na Nigéria um homem deixar um casamento de fachada para ficar com seu verdadeiro amor é considerado "coisa de branco". Talvez por ser um país onde todo mundo tem a mentalidade de escassez (como observa a personagem Obinze), o amor romântico fica em segundo plano, e as relações realmente são guiadas por um pragmatismo.
Outra observação digna de nota presente nesta ficção nigeriana é a de que o cabelo é "a metáfora perfeita para a raça nos Estados Unidos". E a discussão continua super atual: recentemente a tenista Coco Gauff foi hostilizada em massa por posar para uma campanha de grife com seu cabelo natural. Gauff se posicionou assim: "não vou me desculpar pela aparência do meu cabelo".
Ifemelu argumenta em seu blog: "Já viu como, nesses programas de televisão que transformam a aparência da pessoa, as mulheres negras sempre têm o cabelo natural (crespo, enrolado, pixaim) na foto feia do 'antes' e como, na foto bonita do 'depois', alguém pegou um pedaço de metal quente e queimou o cabelo delas para ficar liso? Algumas mulheres negras, tanto americanas quanto não americanas, preferem sair peladas na rua a aparecer em público com seu cabelo natural. Porque, veja bem, não é profissional, sofisticado, sei lá, simplesmente não é normal."
E, se o cabelo está tão intrinsecamente associado à identidade negra, é uma violência a mulher ser coagida a alisá-lo para conseguir uma vaga de emprego, da forma que acontece com a própria Ifemelu e também é muito recorrente fora da ficção.
Como se vê, Americanah propicia o desenvolvimento de diversas reflexões, bastante atuais.
quinta-feira, 12 de setembro de 2024
Azul é a cor mais triste
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024
No crédito ou no débito?
Alan Pauls tem uma escrita complexa, com períodos longos, portanto exige pleno envolvimento do leitor, o que pode ser útil neste momento em que nossa concentração está tão deteriorada. Ajuda a fortalecer o foco.
Com relação ao romance História do pranto, as lágrimas do protagonista são o troféu que seu pai exibe aos amigos, naquela fase em que os adultos em geral exaltam entre si a lascívia precoce ou as altas habilidades, por exemplo, da prole que mal acaba de deixar de engatinhar. No caso do personagem de quem não nos é informado o nome, no caso dele, como dizíamos, o que seu pai ostenta é a sensibilidade exacerbada, que enternece seu genitor, e com seu pranto o infante compra ou paga coisas.
Até que resolve se tornar avaro (amadureceu? deixou para trás a pieguice?) e para de ofertar essas gotas salgadas. Mas não é mais capaz de reverter o processo. Já adolescente, vê seu amigo chorar por consequência de um acontecimento político transmitido pela televisão e não consegue, por mais que queira, mimetizar esse comportamento.
As milhões de lágrimas que seu amigo derrama chegam a lhe causar inveja, como se "contasse dinheiro na frente dos pobres". Assim, por evidente, o escritor argentino Alan Pauls tece uma relação entre o choro e o dinheiro.
O protagonista, que acompanhamos desde pequeno - ele que, na abertura do romance, com sua roupa de Super-Homem experiencia justamente um momento de fraqueza e vulnerabilidade -, apresenta uma incrível habilidade para escutar as pessoas, que mal se aproximam dele, começam a verter nos ouvidos desse jovem seus segredos mais escabrosos. E, mesmo com tão pouca idade, consegue compreender tudo que lhe é confidenciado. Isso também impressiona seu pai.
A palavra "verter" aqui não foi utilizada em vão. Logo no começo do romance, Alan Pauls faz alusão à peça Hamlet, como se comparasse as confissões a um veneno, e mais adiante, na trama, utiliza novamente o mencionado verbo, ecoando em outros momentos, ao longo da narrativa, essa referência shakespeareana.
Acompanhamos também outras peripécias desse nada supérfluo personagem numa narrativa curta e gostosa, que pode ser tida como um romance de formação. Com História do pranto e também com seu O passado, Alan Pauls prova que a boa Literatura Argentina vai além de Cortázar e Borges. E vale dar uma chance a um autor ainda vivo, que é o caso de Pauls.
A minha edição é da extinta Cosac Naify e a tradução é de Josely Vianna Baptista, que "verteu" para o idioma português o restante da trilogia da qual faz parte História do pranto (contudo, cada volume apresenta uma história independente), assim como as demais obras do autor que já estão publicadas no Brasil.
domingo, 25 de julho de 2021
Há algo de podre no reinado da Globo
“O que é necessário é o
direito
de publicar o que se crê ser
verdade,
sem precisar temer
intimidações ou
chantagens de qualquer lado”
George Orwell
Partindo do pressuposto de que “o inimigo do meu inimigo não
necessariamente é meu amigo”, iniciaremos a explanação que visa correlacionar o
universo fictício de 1984 a dados de
nossa realidade material e concreta.
O referido romance, de autoria de George Orwell, não é “banal”,
como se disse recentemente. Tal adjetivo associado a livro tão emblemático só
revela uma “demofobia”, já que a mencionada obra caiu no gosto popular (e não
em vão, visto que o autor faz análise precisa do momento em que vivia, o que
lhe possibilitou projetar um futuro hipotético que muito se assemelha a nossas
condições atuais – embora o objetivo de Orwell não tenha sido o de tecer uma
profecia, ele contudo esclarece que uma sociedade semelhante à do universo
fictício de 1984 poderia vir a
existir), e a admiração destinada a essa obra por parte de grupos de diferentes
vieses ideológicos só deixa entrever a genialidade de seu autor.
A sociedade descrita no romance é “socialista” (ao menos onde
vive Winston, o protagonista), mas, na prática, não se vincula ideologicamente
ao que se concebe como socialismo (dentro e fora da ficção), ou, nas palavras
do próprio autor: “É óbvio que esses novos movimentos [que se denominavam
socialistas] emergiram dos velhos, cujos nomes tendiam a conservar, pagando um
falso tributo a sua ideologia”.
E, tal qual ocorre na referida ficção, somos instados a
acreditar que “o padrão médio de conforto material aumenta ininterruptamente”,
quando, na verdade, em nosso mundo concreto, sob a égide do Capitalismo, nunca
se passou tanta fome.
É necessário reiterar que temos ciência de que o modo de
produção no romance de Orwell é socialista, ainda que equivocadamente, mas em
nosso mundo concreto há esse discurso pronto de que o Capitalismo é o melhor
modo de produção no que tange à distribuição de riquezas, o que de modo algum é
verdade, e aqui é importante frisar que há uma verdade, sim, ao contrário do
que a visão pós-moderna de mundo nos induz a crer. Para ilustrar com palavras
do próprio Orwell: “Havia verdade e havia inverdade, e se você se agarrasse à
verdade, mesmo que o mundo inteiro o contradissesse, não estaria louco”.
(Ressalte-se que, de acordo com Raymond Williams, Orwell, em
seu posicionamento pessoal, optava pelo socialismo democrático e se opunha ao
socialismo autoritário).
Também estamos em condições análogas às dos personagens de 1984 quanto à crença de que “mudar de
opinião, ou mesmo de atitude política, é uma confissão de fraqueza”. A analogia
se dá pois ideologicamente somos todos instados a acreditar que o Capitalismo é
o único modo de produção viável ou a melhor das opções, e as pessoas que
denunciam as mazelas do Capitalismo são vistas como “fracas”, ou “ingênuas”,
como na frase falsamente atribuída a Winston Churchill e que segundo a
Wikipédia é de autoria de Georges Clemenceau: “Um homem que não seja um
socialista aos 20 anos não tem coração. Um homem que ainda seja um socialista
aos 40 não tem cabeça”.
(E há quem questione a credibilidade da Wikipédia, mas essa
possibilidade de adulteração da realidade tem justamente a ver com o romance
que estamos abordando).
Voltando à frase de autoria duvidosa, interessante que seja
sinal de “ter cabeça” defender um sistema no qual você é explorado. Pois, vamos
combinar, né, gente? Apenas uma ínfima minoria não é explorada no Capitalismo.
Ainda quanto à questão da ideologia, o trecho de 1984 disponibilizado a seguir é bem
ilustrativo: “Todas as crenças, hábitos, preferências, emoções e atitudes
mentais que caracterizam nosso tempo são, na verdade, maneiras de reforçar a
mística do Partido e de impedir que a verdadeira natureza da sociedade atual
seja percebida”.
O Partido, na ficção de Orwell, é um partido único, que
centraliza o poder na Oceânia, onde vive o protagonista Winston. E, se esse
conjunto de crenças e hábitos é, no romance, propagado pelo Ministério da
Verdade, ou MiniVer, em nosso mundo quem se dá a esse trabalho é a Grande
Mídia. Um único exemplo desse conjunto de ideias que nos é vendido é que somos
instados a acreditar que ser “bacana” (palavra que adquiriu conotação horrível
de tanto ser mal empregada e emprego este também vinculado a um viés ideológico
específico) é possuir a bolsa da marca X ou Y, mesmo que você tenha que se
matar de trabalhar para adquiri-la, e depois vender a imagem oposta ao que
realmente é: mero(a) trabalhador(a) assalariado(a).
Como bem salientou o Prof. Dr. Luís Eustáquio Soares (UFES),
a Rede Globo é um partido político (se não no sentido estrito, ao menos atua
como um). E, complementando a dedução do referido professor, assim como o
Partido do romance de Orwell, somos instados a crer que é verdade o que a Rede
Globo quer nos induzir a acreditar que é verdade. Como exemplifica novo trecho
de 1984: “Tudo o que o Partido
reconhece como verdade é a verdade. É
impossível ver a realidade se não for pelos olhos do Partido”. Deste modo, tal
emissora, assim como as demais, tem sua parcela de responsabilidade quando se
questiona a credibilidade em relação ao que ela(s) veicula(m) em seus noticiários.
Talvez não propaguem exatamente “fake news”, mas escolhem cuidadosamente como
vão embalar/revestir a notícia que nos será vendida.
Ainda quanto à Grande Mídia, o seguinte trecho do romance que
ora nos serve de base a reflexões é bem elucidativo: “A invenção da imprensa,
contudo, facilitara a tarefa de manipular a opinião pública, e o cinema e o
rádio aprofundaram o processo. Com o desenvolvimento da televisão e o avanço
técnico que possibilitou a recepção e a transmissão simultâneas por intermédio
do mesmo aparelho, a vida privada chegou ao fim. Todos os cidadãos, ou pelo
menos todos os cidadãos suficientemente importantes para justificar a
vigilância, podiam ser mantidos vinte e quatro horas por dia sob os olhos da
polícia, ouvindo a propaganda oficial, com todos os outros canais de
comunicação fechados. A possibilidade de obrigar todos os cidadãos a observar
estrita obediência às determinações do Estado e completa uniformidade de
opinião sobre todos os assuntos existia pela primeira vez”.
Como se observa, no romance 1984 os aparelhos televisivos seriam não apenas transmissores, mas
também receptores, ou seja, os personagens são monitorados vinte e quatro horas
por dia. A “teletela” é um aparelho que, no romance de Orwell, opera a dupla função: de projetar e também de captar as imagens do
que deveria ser a privacidade dos personagens. E se a teletela está presente na
sala do programa televisivo Big Brother, como nos lembra Fabio Salvatti no
artigo “O Sanduíche-íche e a Teletela” (disponível na internet), por que ela
não estaria presente também em nossas casas? (o que é acentuado hoje com a
disseminação dos smartphones) Seríamos ingênuos o suficiente para acreditar que
a sociedade do espetáculo não aproveitaria a sugestão de Orwell? Se é que já não
era uma funcionalidade dos aparelhos televisivos desde o início e que não
escapou à observação arguta do autor inglês... Faça o teste: nunca aconteceu de
você ver transportado (de maneira adaptada) para um drama fictício da TV uma
conversa ou cena ocorrida num seu ambiente íntimo?
E podem me chamar de paranoica. George Orwell também foi
acusado disso. De todo modo, pouca diferença faz a existência ou não da
teletela num mundo em que praticamente todo mundo tem ciência de que está sendo
vigiado (também) pela via dos smartphones.
Interessante também notar a cara de pau da emissora que com o
nome de seu programa que atualmente é, pode-se dizer, o carro-chefe de sua
programação (ainda que não seja exibido durante todo o ano – mas que o é todos
os anos), faz alusão explícita ao romance de Orwell (ainda que a ideia de usar
tal nome não tenha sido originalmente concebida pela emissora brasileira).
Cabe ressaltar também que mesmo que a vigilância no referido
programa não se dê a partir do
aparelho televisivo, conforme sugere Fabio Salvatti em seu artigo, é fato que há a vigilância no programa, assim como
em nosso dia a dia.
Aí, depois, qual é a solução ante uma pessoa que promove esse
“desvelamento” (e não só com relação à vigilância)? Desmoralizá-la,
desumanizá-la, fazendo crer que ela não tem dignidade alguma. É fácil para o
Partido fazer com que se creia que a pessoa que “não se dispôs ao ato de
submissão” de enxergar a realidade tal como Ele quer que a enxerguemos é uma
“lunática”, uma “minoria de um”.
Há um esforço constante para que os hereges sejam
“derrotados, desacreditados, ridicularizados”, como acontece no romance de
Orwell. Ou para que, como observa Raymond Williams, refletindo também a partir
do romance 1984, as “figuras públicas
dissidentes” sejam vistas como “inimigos públicos”: “não a ‘oposição oficial
apropriada’, mas os Vermelhos, Demolidores e Extremistas ‘não-oficiais’ que, ao
bom estilo de Mil novecentos e oitenta e
quatro, eram vistos como loucos ou culpados de pensamentos-crime”.
Talvez a classe dominante pense que não precisa se apoquentar
com o meu discurso, pois, no presente momento, estamos em condições análogas às
do universo fictício de 1984: “Nada a
temer do lado dos proletários. Abandonados a si mesmos, continuarão
trabalhando, reproduzindo-se e morrendo de geração em geração, século após
século, não apenas sem o menor impulso no sentido de rebelar-se, como incapazes
de perceber que o mundo poderia ser diferente do que é. Os proletários só
teriam como tornar-se perigosos se o avanço da técnica industrial exigisse que
recebessem melhor educação; contudo, [...] o nível da educação popular na
verdade está em declínio”.
Daí se vê o que justifica a atual necessidade de se desmontar
as universidades públicas: é perigoso (para a classe dominante) que o povo
aprenda a pensar. Mas, diferentemente da previsão feita na ficção orwelliana, o
povo pode vir a mostrar sua força.
Atualmente, um dos entraves a essa conscientização que o povo
precisa aprender a desenvolver, tem sua relação com a memória, o que é
equiparável ao totalitarismo presente nas páginas de 1984: o excesso de informações a que somos constantemente
submetidos parece ser algo programado para fragilizar a nossa capacidade de
reter informação. Destarte, nossa memória é tão inoperante quanto a dos
personagens da ficção de Orwell.
* *
*
A título de exemplificação, voltemos um pouco sobre o que
dissemos com relação à verdade que nos é vendida pelos meios de comunicação
hegemônicos: recentemente, Eduardo Leite concedeu entrevista a Pedro Bial, e
transmitindo essa entrevista, a Globo quer que acreditemos que ela apoia a
causa LGBTQIA+, quando, na verdade, defende o interesse de empresas que, se
pudessem, dariam chibatadas na população LGBTQIA+ tal qual os antigos capatazes
faziam com os escravos, a título de hipérbole (mas nem tanto). A Rede Globo
quer que se creia que a luta LGBTQIA+ deve ser travada apenas dentro dos moldes
da sociedade capitalista, quando, nesses moldes, na verdade a situação NUNCA
será de fato solucionada. Para saber mais, consultar a excelente matéria veiculada no site do PSTU.
Terminaremos com a deixa, a ser brevemente desenvolvida, de
Irving Howe (extraída de um texto também sobre 1984): “o Estado totalitário é intrinsecamente inimigo da liberdade
erótica”. Assim, o totalitarismo inverte a equação e aqueles que se permitem o
prazer erótico são vistos como inimigos. Pois “tudo o que não é calculado é
subversivo” (frase de Howe). Afinal, ainda para Irving Howe, “esses impulsos
[sexuais] talvez se revelem uma das forças mais duradouras de resistência ao
Estado totalitário” (donde se conclui que o prazer é perigoso para quem detém o
poder).
Desse modo, quem ainda se permite, quem ainda se entrega ao
deleite erótico é visto como um “monstro social” (e a sociedade em geral também
é induzida a enxergar assim quem desfruta do prazer, sem fazer questão de
esconder que o faz).
E nem é preciso lembrar que, contraditoriamente, na década de 1980 a própria Rede Globo (apenas uma das instituições para as quais a erotização e a carga subversiva por ela propiciada constitui incômodo) estimulou a sexualidade (até precoce) de milhares de espectadores com o programa da Xuxa, como bem observa a pesquisadora estadunidense Amelia Simpson. Mas isso já daria um outro post.





