domingo, 31 de maio de 2026

Machismo numa plataforma de petróleo


 A história de Boletim de bordo se passa numa plataforma de petróleo, onde a protagonista Dora atua como fiscal, ou seja, está hierarquicamente bem posicionada, o que não impede que ela sofra o infelizmente inevitável machismo.

Conduzindo uma investigação acerca de um acidente fatal, a fiscal constantemente se compara a um golfinho que ficou encurralado no "moon pool", uma abertura no casco localizada no centro do navio.

A situação vai ficando cada vez mais espinhosa e, para agravar o contexto, a narrativa acontece em plena pandemia do coronavírus.

Mas, em meio a esse thriller, há outra personagem, Janaína, que evidencia que uma simples puta pode ter mais dignidade que muito macho que se vende como respeitável.

Guida Carvalho nos lembra que, fiscal ou puta, ser mulher neste mundo (seja em mar, seja em terra) não é para principiantes.

Alteridade-mor

Até o funcionário da secretaria lendo o meu nome errado - tudo foi pura encenação. Lógico que ele sabia quem eu era.

Foi quando o Professor Coordenador de Área fazia um tour pela escola comigo.

O disse-me-disse certamente chegou à diretora, que não validou o meu contrato de D. T. "Aquela sirigaita!", imagino-a falando.

E é assim que me tornei a alteridade-mor em Esparramávea. Graças ao trabalho incessante de uma certa burguesa, trabalho que ela faz com afinco, literalmente dia e noite, com o objetivo de me destruir.

Tornei-me tal como a protagonista do romance de Darrieussecq: rejeitada por todos, evitada por todos.

Mas há uma trilha a ser percorrida nessa linha de fuga. Ainda que uma trilha em meio aos escombros.

Há de haver uma saída. Um túnel cavado em meio às letras.

Há de haver uma viela, ainda que suja, ainda que escorregadia feito um macarrão derretido.

Escola por escola, a diretora do Manuel Ortez, muito mais poderosa, sustentou o meu posicionamento dentre o corpo docente.

sábado, 30 de maio de 2026

Luta de classes


Eu apaguei a postagem anterior, mas a luta de classes continua. A história de uma burguesona querendo humilhar uma escritora perante um país inteiro. Porque a burguesona em questão não tem nenhum talento, nenhuma habilidade. Então inveja quem o tem e se tornou uma sombra de Helena Cirelli. Não tem vida própria, não faz outra coisa na vida a não ser me stalkear 24h por dia. E o BRASIL INTEIRO sabe que essa burguesona é filha do dono de uma marmoraria, ou seja, uma família de parasitas sanguessugando o dinheiro dos trabalhadores através da mais-valia.

Continuo ressaltando que A VERGONHA DEVE MUDAR DE LADO.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Percursos migratórios e seus desdobramentos

 

Assim como os latino-americanos, os nigerianos que migram para os Estados Unidos assumem muitas vezes uma condição inferior a que teriam em seu país de origem, tornando-se subservientes, como é ilustrado pela personagem tia Uju, no romance Americanah, de autoria de Chimamanda Ngozi Adichie. Já Ginika, com a flexibilidade proporcionada pela juventude, teve outra sorte. A protagonista é Ifemelu, mas tia Uju tem um papel importante no romance. E esse é um caso em que a confusão feita com o gênero narrativo mencionado se justifica, pois realmente se trata de uma história de amor. Mas o livro não se resume a isso. Detém-se muito nos percalços vivenciados pelos imigrantes no país que parece atraí-los como um ímã, por ser considerado "terra de oportunidades".

Chimamanda também desenvolve os choques culturais oriundos desses deslocamentos. Por exemplo, Ifemelu estranha os costumes dos Estados Unidos ao chegar lá, como quando vai a uma festa e as pessoas ficam só paradas bebendo, ao invés de dançar.

Há em Americanah certa marcação temporal em torno das estações: quando ela chega, um verão escaldante no Brooklyn, depois o outono das incertezas, já na Filadélfia: "[...] teve uma súbita sensação de névoa, de uma teia leitosa que teria de rasgar com as mãos. Seu outono da semicegueira tinha começado, o outono das perplexidades, das experiências que teve sabendo que havia camadas escorregadias de significado que lhe escapavam."

Passagem que revela Ifemelu tateando no escuro, descobrindo um novo mundo que a torna hesitante e insegura. Mesmo seu inglês, que ela já dominava desde a Nigéria, é motivo para ela buscar se reposicionar, tentando imitar o sotaque estadunidense, após ser confrontada por uma nativa que questiona seu conhecimento acerca da língua.

No livro de Chimamanda também se vê a crítica ao costume imperialista de, mesmo quando aparentemente se está fazendo um elogio, por trás deixa entrever um caráter de superioridade. No exemplo mencionado a seguir, o suposto elogio se destina ao exotismo que a personagem enxerga na cultura de Ifemelu: "'Que nome lindo', disse Kimberly. 'Significa alguma coisa? Amo nomes multiculturais porque eles têm significados maravilhosos, de culturas maravilhosas e ricas.' Kimberly estava dando o sorriso benevolente das pessoas que pensam que 'cultura' é uma propriedade estranha e pitoresca de pessoas pitorescas, uma palavra que sempre tinha de ser acompanhada do adjetivo 'rica'. Ela jamais acharia que a Noruega tinha uma 'cultura rica'."

Ifemelu, depois de vivenciar diversas experiências nos Estados Unidos, inclusive criando um blog que alcança certa relevância por abordar questões raciais, acaba voltando para a Nigéria - e isso não é um spoiler: nas primeiras páginas do livro já ficamos sabendo que ela vai voltar (o que também já está evidenciado desde o título do romance) - e se ressente por não ser mais tão nigeriana assim: foi definitivamente contaminada pela "América".

Na parte do romance que se passa na Nigéria, personagem que me causou forte impressão foi Kosi, com seu pragmatismo calculista com relação ao casamento: não importa que o marido tenha uma amante, o que vale é manter a fachada de casamento perfeito e a fonte de renda proporcionada pelo matrimônio.

O romance de Chimamanda nos revela que na Nigéria um homem deixar um casamento de fachada para ficar com seu verdadeiro amor é considerado "coisa de branco". Talvez por ser um país onde todo mundo tem a mentalidade de escassez (como observa a personagem Obinze), o amor romântico fica em segundo plano, e as relações realmente são guiadas por um pragmatismo.

Outra observação digna de nota presente nesta ficção nigeriana é a de que o cabelo é "a metáfora perfeita para a raça nos Estados Unidos". E a discussão continua super atual: recentemente a tenista Coco Gauff foi hostilizada em massa por posar para uma campanha de grife com seu cabelo natural. Gauff se posicionou assim: "não vou me desculpar pela aparência do meu cabelo".

Ifemelu argumenta em seu blog: "Já viu como, nesses programas de televisão que transformam a aparência da pessoa, as mulheres negras sempre têm o cabelo natural (crespo, enrolado, pixaim) na foto feia do 'antes' e como, na foto bonita do 'depois', alguém pegou um pedaço de metal quente e queimou o cabelo delas para ficar liso? Algumas mulheres negras, tanto americanas quanto não americanas, preferem sair peladas na rua a aparecer em público com seu cabelo natural. Porque, veja bem, não é profissional, sofisticado, sei lá, simplesmente não é normal."

E, se o cabelo está tão intrinsecamente associado à identidade negra, é uma violência a mulher ser coagida a alisá-lo para conseguir uma vaga de emprego, da forma que acontece com a própria Ifemelu e também é muito recorrente fora da ficção.

Como se vê, Americanah propicia o desenvolvimento de diversas reflexões, bastante atuais.

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Azul é a cor mais triste

Quatro irmãs. Uma delas já falecida desde o momento em que começamos a acompanhar a narrativa. As outras três tentando lidar com o luto: Avery, com sua frieza lúcida; Bonnie, lutadora de boxe estoica; e Lucky, constantemente comparada a um lobo e com a personalidade selvagem.

Se, como disse Antonio Candido no ensaio "O direito à Literatura", precisamos da ficção, o romance As irmãs Blue, de Coco Mellors, foi-me proveitoso para elaborar algumas questões internas que andam me rondando.

Conforme se depreende da leitura de Recado do nome, de Ana Maria Machado, os nomes das personagens, numa obra literária, fornecem poderosas pistas sobre esses entes fictícios e sobre a narrativa em si, podendo consistir numa eficaz chave interpretativa.

Quanto ao romance de Coco Mellors, pode-se dizer, com relação ao sobrenome indicado já no título, que a cor azul, no contexto cultural dos Estados Unidos, carrega uma conotação de tristeza, e, por curioso que seja, o drama das irmãs do romance de Mellors nos proporciona um entretenimento prazeroso e leve (ainda que por vezes sejamos expostos a um verdadeiro turbilhão) e a trama é poderosa em nos conduzir à imersão.

Porém, algo que tenho notado nas obras literárias contemporâneas escritas em língua inglesa é o número excessivo de comparações, que geralmente beiram o ridículo, tal qual: "Era uma bela tarde de verão, e a luz, enquanto eles subiam a ladeira, era como o amarelo intenso da boa manteiga francesa."

Na edição em português do Brasil de As irmãs Blue, encontra-se, na mesma página de onde foi retirada a citação acima, outra comparação, sem falar da que está presente na página anterior. Daria pra fazer uma pesquisa de quantas vezes aparece no romance esse recurso, o mais básico das figuras de linguagem.

Mas eu seria ingrata se dissesse que não tirei proveito dessa leitura. O forte da ficção de Coco Mellors a que tive acesso é a construção das personagens que dão título ao livro, quatro irmãs com personalidades complexas e bem distintas umas das outras, cada uma com suas peculiaridades e não propriamente se encaixando tal qual um quebra-cabeça, pois vezes demais ocorrem atritos, comuns em pessoas com esse grau de parentesco.

E aí entra outro ponto forte do romance: diálogos bem encadeados, às vezes com um toque de humor, mas na maioria das vezes profundos e reveladores, que, junto com outras passagens que externam a personalidade das personagens, ressoam em nós por ecoar nossos "exatos pensamentos e sentimentos", tal como reflete Avery, a irmã mais velha.

Convém observar também que, ainda relacionado ao sobrenome da família, mais para o final do livro a escolha da autora se elucida de modo mais aprofundado. E, com advertência de spoiler sutil, mas que se trata de conhecimento prévio que estragaria muito a fruição da obra, prossigo: há, em nossa sociedade, todo esse alarde quanto à descriminalização do aborto, mas será que a maternidade compulsória não cria uma prole doente e, em consequência, uma humanidade doente?

Enfim, o drama das irmãs Blue permite que enxerguemos com mais naturalidade nossas próprias tragédias cotidianas. Nossa vida consiste numa rede intricada de relações que muitas vezes desembocam em interações embaraçosas, e uma obra que mostra que isso é mais comum do que se imagina cumpre sua função. E a fruição de um enredo bem construído, a despeito de alguns (talvez irrelevantes) problemas de revisão e/ou tradução, ajuda (ainda com Antonio Candido) a organizar coisas dentro de nós, o que talvez não ocorresse de outra forma.

Coco Mellors, com seu segundo romance, dá sinais de que podem vir outras produções boas por aí.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

No crédito ou no débito?

 


Alan Pauls tem uma escrita complexa, com períodos longos, portanto exige pleno envolvimento do leitor, o que pode ser útil neste momento em que nossa concentração está tão deteriorada. Ajuda a fortalecer o foco.

Com relação ao romance História do pranto, as lágrimas do protagonista são o troféu que seu pai exibe aos amigos, naquela fase em que os adultos em geral exaltam entre si a lascívia precoce ou as altas habilidades, por exemplo, da prole que mal acaba de deixar de engatinhar. No caso do personagem de quem não nos é informado o nome, no caso dele, como dizíamos, o que seu pai ostenta é a sensibilidade exacerbada, que enternece seu genitor, e com seu pranto o infante compra ou paga coisas.

Até que resolve se tornar avaro (amadureceu? deixou para trás a pieguice?) e para de ofertar essas gotas salgadas. Mas não é mais capaz de reverter o processo. Já adolescente, vê seu amigo chorar por consequência de um acontecimento político transmitido pela televisão e não consegue, por mais que queira, mimetizar esse comportamento.

As milhões de lágrimas que seu amigo derrama chegam a lhe causar inveja, como se "contasse dinheiro na frente dos pobres". Assim, por evidente, o escritor argentino Alan Pauls tece uma relação entre o choro e o dinheiro.

O protagonista, que acompanhamos desde pequeno - ele que, na abertura do romance, com sua roupa de Super-Homem experiencia justamente um momento de fraqueza e vulnerabilidade -, apresenta uma incrível habilidade para escutar as pessoas, que mal se aproximam dele, começam a verter nos ouvidos desse jovem seus segredos mais escabrosos. E, mesmo com tão pouca idade, consegue compreender tudo que lhe é confidenciado. Isso também impressiona seu pai.

A palavra "verter" aqui não foi utilizada em vão. Logo no começo do romance, Alan Pauls faz alusão à peça Hamlet, como se comparasse as confissões a um veneno, e mais adiante, na trama, utiliza novamente o mencionado verbo, ecoando em outros momentos, ao longo da narrativa, essa referência shakespeareana.

Acompanhamos também outras peripécias desse nada supérfluo personagem numa narrativa curta e gostosa, que pode ser tida como um romance de formação. Com História do pranto e também com seu O passado, Alan Pauls prova que a boa Literatura Argentina vai além de Cortázar e Borges. E vale dar uma chance a um autor ainda vivo, que é o caso de Pauls.

A minha edição é da extinta Cosac Naify e a tradução é de Josely Vianna Baptista, que "verteu" para o idioma português o restante da trilogia da qual faz parte História do pranto (contudo, cada volume apresenta uma história independente), assim como as demais obras do autor que já estão publicadas no Brasil.

domingo, 25 de julho de 2021

Há algo de podre no reinado da Globo

 


“O que é necessário é o direito

de publicar o que se crê ser verdade,

sem precisar temer intimidações ou

chantagens de qualquer lado”

George Orwell


Partindo do pressuposto de que “o inimigo do meu inimigo não necessariamente é meu amigo”, iniciaremos a explanação que visa correlacionar o universo fictício de 1984 a dados de nossa realidade material e concreta.

O referido romance, de autoria de George Orwell, não é “banal”, como se disse recentemente. Tal adjetivo associado a livro tão emblemático só revela uma “demofobia”, já que a mencionada obra caiu no gosto popular (e não em vão, visto que o autor faz análise precisa do momento em que vivia, o que lhe possibilitou projetar um futuro hipotético que muito se assemelha a nossas condições atuais – embora o objetivo de Orwell não tenha sido o de tecer uma profecia, ele contudo esclarece que uma sociedade semelhante à do universo fictício de 1984 poderia vir a existir), e a admiração destinada a essa obra por parte de grupos de diferentes vieses ideológicos só deixa entrever a genialidade de seu autor.

A sociedade descrita no romance é “socialista” (ao menos onde vive Winston, o protagonista), mas, na prática, não se vincula ideologicamente ao que se concebe como socialismo (dentro e fora da ficção), ou, nas palavras do próprio autor: “É óbvio que esses novos movimentos [que se denominavam socialistas] emergiram dos velhos, cujos nomes tendiam a conservar, pagando um falso tributo a sua ideologia”.

E, tal qual ocorre na referida ficção, somos instados a acreditar que “o padrão médio de conforto material aumenta ininterruptamente”, quando, na verdade, em nosso mundo concreto, sob a égide do Capitalismo, nunca se passou tanta fome.

É necessário reiterar que temos ciência de que o modo de produção no romance de Orwell é socialista, ainda que equivocadamente, mas em nosso mundo concreto há esse discurso pronto de que o Capitalismo é o melhor modo de produção no que tange à distribuição de riquezas, o que de modo algum é verdade, e aqui é importante frisar que há uma verdade, sim, ao contrário do que a visão pós-moderna de mundo nos induz a crer. Para ilustrar com palavras do próprio Orwell: “Havia verdade e havia inverdade, e se você se agarrasse à verdade, mesmo que o mundo inteiro o contradissesse, não estaria louco”.

(Ressalte-se que, de acordo com Raymond Williams, Orwell, em seu posicionamento pessoal, optava pelo socialismo democrático e se opunha ao socialismo autoritário).

Também estamos em condições análogas às dos personagens de 1984 quanto à crença de que “mudar de opinião, ou mesmo de atitude política, é uma confissão de fraqueza”. A analogia se dá pois ideologicamente somos todos instados a acreditar que o Capitalismo é o único modo de produção viável ou a melhor das opções, e as pessoas que denunciam as mazelas do Capitalismo são vistas como “fracas”, ou “ingênuas”, como na frase falsamente atribuída a Winston Churchill e que segundo a Wikipédia é de autoria de Georges Clemenceau: “Um homem que não seja um socialista aos 20 anos não tem coração. Um homem que ainda seja um socialista aos 40 não tem cabeça”.

(E há quem questione a credibilidade da Wikipédia, mas essa possibilidade de adulteração da realidade tem justamente a ver com o romance que estamos abordando).

Voltando à frase de autoria duvidosa, interessante que seja sinal de “ter cabeça” defender um sistema no qual você é explorado. Pois, vamos combinar, né, gente? Apenas uma ínfima minoria não é explorada no Capitalismo.

Ainda quanto à questão da ideologia, o trecho de 1984 disponibilizado a seguir é bem ilustrativo: “Todas as crenças, hábitos, preferências, emoções e atitudes mentais que caracterizam nosso tempo são, na verdade, maneiras de reforçar a mística do Partido e de impedir que a verdadeira natureza da sociedade atual seja percebida”.

O Partido, na ficção de Orwell, é um partido único, que centraliza o poder na Oceânia, onde vive o protagonista Winston. E, se esse conjunto de crenças e hábitos é, no romance, propagado pelo Ministério da Verdade, ou MiniVer, em nosso mundo quem se dá a esse trabalho é a Grande Mídia. Um único exemplo desse conjunto de ideias que nos é vendido é que somos instados a acreditar que ser “bacana” (palavra que adquiriu conotação horrível de tanto ser mal empregada e emprego este também vinculado a um viés ideológico específico) é possuir a bolsa da marca X ou Y, mesmo que você tenha que se matar de trabalhar para adquiri-la, e depois vender a imagem oposta ao que realmente é: mero(a) trabalhador(a) assalariado(a).

Como bem salientou o Prof. Dr. Luís Eustáquio Soares (UFES), a Rede Globo é um partido político (se não no sentido estrito, ao menos atua como um). E, complementando a dedução do referido professor, assim como o Partido do romance de Orwell, somos instados a crer que é verdade o que a Rede Globo quer nos induzir a acreditar que é verdade. Como exemplifica novo trecho de 1984: “Tudo o que o Partido reconhece como verdade é a verdade. É impossível ver a realidade se não for pelos olhos do Partido”. Deste modo, tal emissora, assim como as demais, tem sua parcela de responsabilidade quando se questiona a credibilidade em relação ao que ela(s) veicula(m) em seus noticiários. Talvez não propaguem exatamente “fake news”, mas escolhem cuidadosamente como vão embalar/revestir a notícia que nos será vendida.

Ainda quanto à Grande Mídia, o seguinte trecho do romance que ora nos serve de base a reflexões é bem elucidativo: “A invenção da imprensa, contudo, facilitara a tarefa de manipular a opinião pública, e o cinema e o rádio aprofundaram o processo. Com o desenvolvimento da televisão e o avanço técnico que possibilitou a recepção e a transmissão simultâneas por intermédio do mesmo aparelho, a vida privada chegou ao fim. Todos os cidadãos, ou pelo menos todos os cidadãos suficientemente importantes para justificar a vigilância, podiam ser mantidos vinte e quatro horas por dia sob os olhos da polícia, ouvindo a propaganda oficial, com todos os outros canais de comunicação fechados. A possibilidade de obrigar todos os cidadãos a observar estrita obediência às determinações do Estado e completa uniformidade de opinião sobre todos os assuntos existia pela primeira vez”.

Como se observa, no romance 1984 os aparelhos televisivos seriam não apenas transmissores, mas também receptores, ou seja, os personagens são monitorados vinte e quatro horas por dia. A “teletela” é um aparelho que, no romance de Orwell, opera a dupla função: de projetar e também de captar as imagens do que deveria ser a privacidade dos personagens. E se a teletela está presente na sala do programa televisivo Big Brother, como nos lembra Fabio Salvatti no artigo “O Sanduíche-íche e a Teletela” (disponível na internet), por que ela não estaria presente também em nossas casas? (o que é acentuado hoje com a disseminação dos smartphones) Seríamos ingênuos o suficiente para acreditar que a sociedade do espetáculo não aproveitaria a sugestão de Orwell? Se é que já não era uma funcionalidade dos aparelhos televisivos desde o início e que não escapou à observação arguta do autor inglês... Faça o teste: nunca aconteceu de você ver transportado (de maneira adaptada) para um drama fictício da TV uma conversa ou cena ocorrida num seu ambiente íntimo?

E podem me chamar de paranoica. George Orwell também foi acusado disso. De todo modo, pouca diferença faz a existência ou não da teletela num mundo em que praticamente todo mundo tem ciência de que está sendo vigiado (também) pela via dos smartphones.

Interessante também notar a cara de pau da emissora que com o nome de seu programa que atualmente é, pode-se dizer, o carro-chefe de sua programação (ainda que não seja exibido durante todo o ano – mas que o é todos os anos), faz alusão explícita ao romance de Orwell (ainda que a ideia de usar tal nome não tenha sido originalmente concebida pela emissora brasileira).

Cabe ressaltar também que mesmo que a vigilância no referido programa não se dê a partir do aparelho televisivo, conforme sugere Fabio Salvatti em seu artigo, é fato que a vigilância no programa, assim como em nosso dia a dia.

Aí, depois, qual é a solução ante uma pessoa que promove esse “desvelamento” (e não só com relação à vigilância)? Desmoralizá-la, desumanizá-la, fazendo crer que ela não tem dignidade alguma. É fácil para o Partido fazer com que se creia que a pessoa que “não se dispôs ao ato de submissão” de enxergar a realidade tal como Ele quer que a enxerguemos é uma “lunática”, uma “minoria de um”.

Há um esforço constante para que os hereges sejam “derrotados, desacreditados, ridicularizados”, como acontece no romance de Orwell. Ou para que, como observa Raymond Williams, refletindo também a partir do romance 1984, as “figuras públicas dissidentes” sejam vistas como “inimigos públicos”: “não a ‘oposição oficial apropriada’, mas os Vermelhos, Demolidores e Extremistas ‘não-oficiais’ que, ao bom estilo de Mil novecentos e oitenta e quatro, eram vistos como loucos ou culpados de pensamentos-crime”.

Talvez a classe dominante pense que não precisa se apoquentar com o meu discurso, pois, no presente momento, estamos em condições análogas às do universo fictício de 1984: “Nada a temer do lado dos proletários. Abandonados a si mesmos, continuarão trabalhando, reproduzindo-se e morrendo de geração em geração, século após século, não apenas sem o menor impulso no sentido de rebelar-se, como incapazes de perceber que o mundo poderia ser diferente do que é. Os proletários só teriam como tornar-se perigosos se o avanço da técnica industrial exigisse que recebessem melhor educação; contudo, [...] o nível da educação popular na verdade está em declínio”.

Daí se vê o que justifica a atual necessidade de se desmontar as universidades públicas: é perigoso (para a classe dominante) que o povo aprenda a pensar. Mas, diferentemente da previsão feita na ficção orwelliana, o povo pode vir a mostrar sua força.

Atualmente, um dos entraves a essa conscientização que o povo precisa aprender a desenvolver, tem sua relação com a memória, o que é equiparável ao totalitarismo presente nas páginas de 1984: o excesso de informações a que somos constantemente submetidos parece ser algo programado para fragilizar a nossa capacidade de reter informação. Destarte, nossa memória é tão inoperante quanto a dos personagens da ficção de Orwell.

*       *       *

A título de exemplificação, voltemos um pouco sobre o que dissemos com relação à verdade que nos é vendida pelos meios de comunicação hegemônicos: recentemente, Eduardo Leite concedeu entrevista a Pedro Bial, e transmitindo essa entrevista, a Globo quer que acreditemos que ela apoia a causa LGBTQIA+, quando, na verdade, defende o interesse de empresas que, se pudessem, dariam chibatadas na população LGBTQIA+ tal qual os antigos capatazes faziam com os escravos, a título de hipérbole (mas nem tanto). A Rede Globo quer que se creia que a luta LGBTQIA+ deve ser travada apenas dentro dos moldes da sociedade capitalista, quando, nesses moldes, na verdade a situação NUNCA será de fato solucionada. Para saber mais, consultar a excelente matéria veiculada no site do PSTU.

Terminaremos com a deixa, a ser brevemente desenvolvida, de Irving Howe (extraída de um texto também sobre 1984): “o Estado totalitário é intrinsecamente inimigo da liberdade erótica”. Assim, o totalitarismo inverte a equação e aqueles que se permitem o prazer erótico são vistos como inimigos. Pois “tudo o que não é calculado é subversivo” (frase de Howe). Afinal, ainda para Irving Howe, “esses impulsos [sexuais] talvez se revelem uma das forças mais duradouras de resistência ao Estado totalitário” (donde se conclui que o prazer é perigoso para quem detém o poder).

Desse modo, quem ainda se permite, quem ainda se entrega ao deleite erótico é visto como um “monstro social” (e a sociedade em geral também é induzida a enxergar assim quem desfruta do prazer, sem fazer questão de esconder que o faz).

E nem é preciso lembrar que, contraditoriamente, na década de 1980 a própria Rede Globo (apenas uma das instituições para as quais a erotização e a carga subversiva por ela propiciada constitui incômodo) estimulou a sexualidade (até precoce) de milhares de espectadores com o programa da Xuxa, como bem observa a pesquisadora estadunidense Amelia Simpson. Mas isso já daria um outro post.