minhapequenacatarseparticular
sábado, 10 de outubro de 2026
O desvelamento da hipocrisia
domingo, 31 de maio de 2026
Machismo numa plataforma de petróleo
Alteridade-mor
Até o funcionário da secretaria lendo o meu nome errado - tudo foi pura encenação. Lógico que ele sabia quem eu era.
Foi quando o Professor Coordenador de Área fazia um tour pela escola comigo.
O disse-me-disse certamente chegou à diretora, que não validou o meu contrato de D. T. "Aquela sirigaita!", imagino-a falando.
E é assim que me tornei a alteridade-mor em Esparramávea. Graças ao trabalho incessante de uma certa burguesa, trabalho que ela faz com afinco, literalmente dia e noite, com o objetivo de me destruir.
Tornei-me tal como a protagonista do romance de Darrieussecq: rejeitada por todos, evitada por todos.
Mas há uma trilha a ser percorrida nessa linha de fuga. Ainda que uma trilha em meio aos escombros.
Há de haver uma saída. Um túnel cavado em meio às letras.
Há de haver uma viela, ainda que suja, ainda que escorregadia feito um macarrão derretido.
Escola por escola, a diretora do Manuel Ortez, muito mais poderosa, sustentou o meu posicionamento dentre o corpo docente.
sábado, 30 de maio de 2026
Luta de classes
Continuo ressaltando que A VERGONHA DEVE MUDAR DE LADO.
segunda-feira, 13 de abril de 2026
Percursos migratórios e seus desdobramentos
Chimamanda também desenvolve os choques culturais oriundos desses deslocamentos. Por exemplo, Ifemelu estranha os costumes dos Estados Unidos ao chegar lá, como quando vai a uma festa e as pessoas ficam só paradas bebendo, ao invés de dançar.
Há em Americanah certa marcação temporal em torno das estações: quando ela chega, um verão escaldante no Brooklyn, depois o outono das incertezas, já na Filadélfia: "[...] teve uma súbita sensação de névoa, de uma teia leitosa que teria de rasgar com as mãos. Seu outono da semicegueira tinha começado, o outono das perplexidades, das experiências que teve sabendo que havia camadas escorregadias de significado que lhe escapavam."
Passagem que revela Ifemelu tateando no escuro, descobrindo um novo mundo que a torna hesitante e insegura. Mesmo seu inglês, que ela já dominava desde a Nigéria, é motivo para ela buscar se reposicionar, tentando imitar o sotaque estadunidense, após ser confrontada por uma nativa que questiona seu conhecimento acerca da língua.
No livro de Chimamanda também se vê a crítica ao costume imperialista de, mesmo quando aparentemente se está fazendo um elogio, por trás deixa entrever um caráter de superioridade. No exemplo mencionado a seguir, o suposto elogio se destina ao exotismo que a personagem enxerga na cultura de Ifemelu: "'Que nome lindo', disse Kimberly. 'Significa alguma coisa? Amo nomes multiculturais porque eles têm significados maravilhosos, de culturas maravilhosas e ricas.' Kimberly estava dando o sorriso benevolente das pessoas que pensam que 'cultura' é uma propriedade estranha e pitoresca de pessoas pitorescas, uma palavra que sempre tinha de ser acompanhada do adjetivo 'rica'. Ela jamais acharia que a Noruega tinha uma 'cultura rica'."
Ifemelu, depois de vivenciar diversas experiências nos Estados Unidos, inclusive criando um blog que alcança certa relevância por abordar questões raciais, acaba voltando para a Nigéria - e isso não é um spoiler: nas primeiras páginas do livro já ficamos sabendo que ela vai voltar (o que também já está evidenciado desde o título do romance) - e se ressente por não ser mais tão nigeriana assim: foi definitivamente contaminada pela "América".
Na parte do romance que se passa na Nigéria, personagem que me causou forte impressão foi Kosi, com seu pragmatismo calculista com relação ao casamento: não importa que o marido tenha uma amante, o que vale é manter a fachada de casamento perfeito e a fonte de renda proporcionada pelo matrimônio.
O romance de Chimamanda nos revela que na Nigéria um homem deixar um casamento de fachada para ficar com seu verdadeiro amor é considerado "coisa de branco". Talvez por ser um país onde todo mundo tem a mentalidade de escassez (como observa a personagem Obinze), o amor romântico fica em segundo plano, e as relações realmente são guiadas por um pragmatismo.
Outra observação digna de nota presente nesta ficção nigeriana é a de que o cabelo é "a metáfora perfeita para a raça nos Estados Unidos". E a discussão continua super atual: recentemente a tenista Coco Gauff foi hostilizada em massa por posar para uma campanha de grife com seu cabelo natural. Gauff se posicionou assim: "não vou me desculpar pela aparência do meu cabelo".
Ifemelu argumenta em seu blog: "Já viu como, nesses programas de televisão que transformam a aparência da pessoa, as mulheres negras sempre têm o cabelo natural (crespo, enrolado, pixaim) na foto feia do 'antes' e como, na foto bonita do 'depois', alguém pegou um pedaço de metal quente e queimou o cabelo delas para ficar liso? Algumas mulheres negras, tanto americanas quanto não americanas, preferem sair peladas na rua a aparecer em público com seu cabelo natural. Porque, veja bem, não é profissional, sofisticado, sei lá, simplesmente não é normal."
E, se o cabelo está tão intrinsecamente associado à identidade negra, é uma violência a mulher ser coagida a alisá-lo para conseguir uma vaga de emprego, da forma que acontece com a própria Ifemelu e também é muito recorrente fora da ficção.
Como se vê, Americanah propicia o desenvolvimento de diversas reflexões, bastante atuais.
quinta-feira, 12 de setembro de 2024
Azul é a cor mais triste
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024
No crédito ou no débito?
Alan Pauls tem uma escrita complexa, com períodos longos, portanto exige pleno envolvimento do leitor, o que pode ser útil neste momento em que nossa concentração está tão deteriorada. Ajuda a fortalecer o foco.
Com relação ao romance História do pranto, as lágrimas do protagonista são o troféu que seu pai exibe aos amigos, naquela fase em que os adultos em geral exaltam entre si a lascívia precoce ou as altas habilidades, por exemplo, da prole que mal acaba de deixar de engatinhar. No caso do personagem de quem não nos é informado o nome, no caso dele, como dizíamos, o que seu pai ostenta é a sensibilidade exacerbada, que enternece seu genitor, e com seu pranto o infante compra ou paga coisas.
Até que resolve se tornar avaro (amadureceu? deixou para trás a pieguice?) e para de ofertar essas gotas salgadas. Mas não é mais capaz de reverter o processo. Já adolescente, vê seu amigo chorar por consequência de um acontecimento político transmitido pela televisão e não consegue, por mais que queira, mimetizar esse comportamento.
As milhões de lágrimas que seu amigo derrama chegam a lhe causar inveja, como se "contasse dinheiro na frente dos pobres". Assim, por evidente, o escritor argentino Alan Pauls tece uma relação entre o choro e o dinheiro.
O protagonista, que acompanhamos desde pequeno - ele que, na abertura do romance, com sua roupa de Super-Homem experiencia justamente um momento de fraqueza e vulnerabilidade -, apresenta uma incrível habilidade para escutar as pessoas, que mal se aproximam dele, começam a verter nos ouvidos desse jovem seus segredos mais escabrosos. E, mesmo com tão pouca idade, consegue compreender tudo que lhe é confidenciado. Isso também impressiona seu pai.
A palavra "verter" aqui não foi utilizada em vão. Logo no começo do romance, Alan Pauls faz alusão à peça Hamlet, como se comparasse as confissões a um veneno, e mais adiante, na trama, utiliza novamente o mencionado verbo, ecoando em outros momentos, ao longo da narrativa, essa referência shakespeareana.
Acompanhamos também outras peripécias desse nada supérfluo personagem numa narrativa curta e gostosa, que pode ser tida como um romance de formação. Com História do pranto e também com seu O passado, Alan Pauls prova que a boa Literatura Argentina vai além de Cortázar e Borges. E vale dar uma chance a um autor ainda vivo, que é o caso de Pauls.
A minha edição é da extinta Cosac Naify e a tradução é de Josely Vianna Baptista, que "verteu" para o idioma português o restante da trilogia da qual faz parte História do pranto (contudo, cada volume apresenta uma história independente), assim como as demais obras do autor que já estão publicadas no Brasil.





