Estou lendo a autobiografia de Gisèle Pelicot e a ideia era concluir a leitura antes de postar este texto, mas a perseguição não cessa e com isso minha concentração fica prejudicada, então vou fazê-lo de uma vez. Obviamente, não é uma resenha, apenas um depoimento pessoal comparando a minha experiência com a dessa senhora francesa, e é claro que são experiências muito distintas, embora possuam um certo ponto em comum.
As pessoas compreendem mal o que aconteceu comigo, e atribuem a mim coisas que na verdade não fiz, embora eu assuma que fiz muitas coisas erradas. Contudo, nem tudo o que os outros consideram errado eu concordo que o seja. Para mim, sexo anal não é algo imoral (embora eu ache que deve ser mantido entre quatro paredes, não permiti que disseminassem imagens íntimas minhas e, então, nesse caso sou vítima, e aí endosso as palavras de Gisèle Pelicot de que "a vergonha deve mudar de lado"). Como dizia, sexo anal está longe de ser imoral, o que realmente é imoral é a mais-valia, crime que a burguesia comete escancaradamente aos olhos de todos, e no entanto não é punida.
E a vergonha deve mudar de lado não só com relação à situação já mencionada, mas também deve mudar de lado porque as pessoas desta cidade me constrangeram de diversas formas, só porque sou diferente, até tudo culminar como culminou.
As pessoas se irritaram quando, com o movimento de superar uma depressão monstra, comecei a fazer mestrado, pois aparentemente a alteridade não pode cursar uma pós-graduação numa universidade federal. É inconcebível e inaceitável, do mesmo modo que é inconcebível e inaceitável para determinada parcela da população que os negros tenham começado a ingressar num volume maior nas mesmas universidades federais. Por isso o sistema de cotas causou esse fuzuê todo, e essa indignação conservadora ajudou a impulsionar a candidatura de um sujeito como Bolsonaro, que acabou eleito em 2018. Tudo isso devido a um ódio que a pessoas nutrem contra todo tipo de alteridade.
Tal qual a tripulação do Pequod em Moby Dick, que, liderada por Ahab, se uniu na missão de caçar o cachalote branco, a população de Vitória (salvo algumas exceções, é claro) se uniu numa campanha para me difamar. O cachalote, que no livro de Melville é acusado de agressivo quando só estava tentando se defender, se equipara à minha pessoa enquanto alvo de uma turba inflamada que infundiu na minha imagem a característica da maldade, justificando assim toda a hostilidade e perseguição. É importante reforçar isto: a maldade atribuída tanto a mim quanto a Moby Dick legitimou todo o ódio que foi direcionado a esses alvos.
Quanto a quem gravou e divulgou essas imagens íntimas, ou foi o meu companheiro ou foi o Grande Irmão. E com essa expressão importada da obra de ficção 1984 quero me referir a todo o grupo que lidera o acesso ao meu cotidiano, pois vocês sabem que ninguém tem total privacidade neste mundo. Se foi o Grande Irmão (o que é o mais provável, embora possa não parecer crível), ainda quis me jogar contra o meu companheiro, além de tentar me queimar para sempre devido ao meu potencial revolucionário. Mas, como quem lidera o acesso a essas imagens faz parte da burguesia, está muito certo na mente dessa gente que ela não seria punida.
E, mesmo eu tendo me assumido como vítima, só na cabecinha dessa gente burguesa eu deveria me sentir constrangida por ter sido flagrada fazendo sexo anal. Constrangidos deveriam ser os burgueses - por exemplo, o dono de uma marmoraria e seus descendentes - por trazerem estampado no rosto um crime indecente como a mais-valia. A inocente sodomia, ao contrário, não é crime.
Para quem não sabe o que é mais-valia, segundo o grande Marx, que não por acaso a burguesia tenta difamar, o lucro obtido pelos burgueses (por exemplo, repito, o dono de uma marmoraria) nada mais é do que a apropriação do que os trabalhadores a eles submetidos deixaram de ganhar. Sendo assim, não passa de roubo, logo, todos os burgueses (incluindo o dono de uma marmoraria e seus descendentes) deveriam estar presos (é preciso deixar claro que, sem a mais-valia, o salário dos trabalhadores seria muito mais alto do que é nas condições atuais. Ou seja, nem um Bolsa Família seria necessário).
Por fim, só queria apontar a ignorância dessa gente que confunde squirting com mijo. No livro Carne crua, de Rubem Fonseca, há dois contos intitulados "Boceta". Pois é, se Rubem Fonseca pode, por que Helena Cirelli não pode? Refiro-me à infantilidade pudica dessa gente quando utilizei o termo num blogue. No primeiro desses contos de Fonseca, ele menciona as glândulas de Bartholin, mas esquece-se das glândulas de Skene, que são as responsáveis pelo squirting, ou ejaculação feminina. E tal omissão por parte do grande literato só revela toda a ignorância que ainda ronda a humanidade no que diz respeito não só ao órgão sexual feminino, como à própria sexualidade. Ignorância que talvez esteja por trás da atitude de um Dominique Pelicot. Subjugar aquilo que não se compreende. Mas é claro que não é tudo tão simples assim. Dominique sofreu muito, com um pai abusivo e perverso, e Gisèle tenta compreender o que está por trás de suas atitudes.

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